
A sanção da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026 pela Prefeitura de Campo Grande expôs um espetáculo digno de ficção científica ruim. Os vetos parciais ao texto elaborado pela Câmara Municipal não foram construídos por servidores públicos, não tiveram análise técnica detalhada e tampouco passaram por algum tipo de reflexão política. Foram, pasmem, redigidos por inteligência artificial, com justificativas automáticas, frias e repetitivas.
O que deveria ser momento de debate democrático e de construção de diretrizes para o futuro da cidade foi transformado em um processo mecânico e impessoal. Em vez de planejamento, a população recebeu um pacote de vetos fabricados por algoritmos, recheados de travessões e vícios linguísticos típicos de máquinas que não conhecem nem a gramática nem a realidade social de Campo Grande.
Basta uma leitura no Diário Oficial para notar que os textos parecem mais respostas prontas de chatbot do que documentos oficiais. O Executivo copiou e colou argumentos frágeis, repetiu justificativas batidas e sequer se deu ao trabalho de revisar pausas e lógica textual. É o governo automatizando até mesmo o desprezo pela Câmara Municipal e pelos cidadãos que ela representa.
Entre os vetos, estavam emendas que previam a destinação de recursos para conclusão de obras paradas e para projetos ambientais. Ideias simples, necessárias e socialmente relevantes, jogadas no lixo com base na velha desculpa de que o Legislativo não pode impor gastos ao Executivo. Só que, desta vez, a justificativa não veio nem maquiada foi cuspida por um robô sem compromisso com a vida real da cidade.
A função da LDO é indicar caminhos, sugerir prioridades e apontar necessidades. Vetar esse trabalho de forma automática equivale a desumanizar a política, como se o orçamento fosse um joguinho de planilha sem impacto na vida das pessoas. O ato não é apenas desrespeitoso, é imoral.
A frieza do gesto mostra o quanto a atual gestão se afasta de qualquer noção de participação democrática. Em vez de debater com vereadores, ouvir a sociedade e interpretar demandas reais, o Executivo se contentou em apertar o botão de gerar resposta e deixar que a máquina resolvesse a parte mais sensível do planejamento municipal.
O vexame ganha contornos ainda mais graves quando lembramos que em gestões anteriores as mensagens de veto vinham acompanhadas de análises elaboradas por servidores, com algum esforço de interpretação política. Hoje, o que se vê é a substituição do pensamento humano por blocos de texto mecânicos que envergonham até mesmo o estagiário mais desatento.
Não surpreende que isso tenha ocorrido justamente nesta gestão. Basta lembrar o fiasco da secretária de Fazenda, Márcia Helena Hokama, que deixou milhares de famílias sem assistência porque não soube interpretar receitas do Fundo de Investimento Social. A incapacidade técnica virou marca registrada e talvez explique por que agora a Prefeitura precisa recorrer a uma inteligência artificial para justificar o injustificável.
Prefeitura terceiriza até o desprezo
O Executivo joga com a Câmara Municipal um teatro de cooperação. Vai às reuniões, posa para fotos e promete diálogo, enquanto já planeja vetos frios e automatizados. A farsa é completa e escancara que os vereadores foram tratados como figurantes em um enredo escrito por máquina.
O mais trágico é que a LDO construída pela Câmara não era panfleto político. Era técnica, equilibrada e voltada para resolver gargalos históricos da cidade. Propunha medidas para recuperar obras paralisadas, ampliar investimentos ambientais e reestruturar áreas críticas da gestão municipal. Mesmo assim, tudo foi vetado em bloco, como se o futuro da cidade fosse apenas mais um prompt descartável.
A reação do Legislativo precisa ser firme. É inaceitável que documentos oficiais de uma prefeitura sejam redigidos por inteligência artificial sem revisão, sem responsabilidade institucional e sem a mínima sensibilidade política. A tecnologia pode ser aliada, mas nunca substituta da análise humana em temas que exigem empatia e compromisso social.
O episódio da LDO revela que, em Campo Grande, a inteligência artificial virou muleta de uma gestão sem rumo. A máquina agora assina vetos que envergonham a cidade. E diante da falta de preparo da equipe que deveria conduzir o orçamento municipal, resta a triste constatação de que talvez essa seja mesmo a única inteligência que restou na Prefeitura.