Ação de R$ 2 bilhões expõe o caos ético e financeiro da gestão Adriane Lopes

O que parecia mais um escândalo político de bastidores agora ganha peso judicial. O advogado Corsino Somma ingressou com uma ação popular que cobra nada menos que R$ 2 bilhões da prefeita Adriane Lopes, do marido deputado Lídio Lopes e da secretária de Finanças, Márcia Hokama. O número é tão gigantesco quanto o abismo entre o discurso de moralidade da prefeita e a realidade de sua gestão, marcada por supersalários, folhas paralelas e privilégios seletivos.

A ação pede a suspensão dos atos lesivos ao erário e o bloqueio dos bens dos três, apontando pagamentos ilegais, bônus disfarçados e um festival de adicionais a servidores de confiança. O caso, agora nas mãos da 2ª Vara de Direitos Difusos e Coletivos, é mais um capítulo da novela em que a prefeita evangélica prega austeridade, mas distribui generosidade apenas entre os seus.

Somma baseou a petição em reportagens, prestações de contas e documentos oficiais que mostram aumentos inexplicáveis na folha de pagamento, mesmo com o funcionalismo municipal há dois anos sem reajuste. Segundo o advogado, há indícios de pagamentos secretos e discrepâncias entre valores brutos e líquidos de contracheques. A famosa “folha invisível” que engorda salários e esvazia cofres virou símbolo da atual administração.

Enquanto a propaganda da prefeitura exibe imagens de prosperidade, o advogado fala em “atos lesivos de difícil reparação” e cita a necessidade de intervenção imediata para evitar mais prejuízos. O texto menciona inclusive a atuação do GAECO, o braço investigativo do Ministério Público, que apura as denúncias sobre a farra salarial no alto escalão.

Adriane Lopes, que vive repetindo o discurso de gestão humanizada, agora é personagem de um processo que a acusa de ser generosa apenas com quem a cerca. A prefeita, que congelou o salário de 30 mil servidores, foi rápida em aprovar o próprio aumento e o dos secretários, num gesto que resume o lema da administração: austeridade é para os outros.

O marido, Lídio Lopes, aparece ao lado dela na lista dos réus, mostrando que o conceito de parceria política da família vai além da tribuna e chega até o Judiciário. Já a secretária de Finanças, Márcia Hokama, citada como beneficiária de “pagamentos extraordinários”, é a mesma que costuma defender em audiências públicas a “responsabilidade fiscal” da gestão.

A ironia é que, segundo a própria prefeitura, o gasto com pessoal subiu 14% em meio a um decreto de contenção que suspendeu gratificações e adicionais. A aritmética do poder parece funcionar em outro sistema, onde a matemática da moralidade sempre fecha para cima.

O advogado afirma que o objetivo é “melhorar as condições da população”, o que, convenhamos, já seria um avanço diante de uma prefeitura que coleciona escândalos e falhas administrativas. Se os R$ 2 bilhões forem realmente devolvidos, seria a primeira boa notícia financeira da gestão Adriane em muito tempo.

O processo agora aguarda decisão do juiz Eduardo Lacerda Trevisan. Mas, enquanto o caso se desenrola, fica a sensação de que a prefeita que prometeu “cuidar das pessoas” parece ter esquecido quem são essas pessoas. E talvez descubra, pela via judicial, que a fé e a propaganda não bastam quando o dinheiro público some nas planilhas do poder.

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