
A campanha de Carlos Bernardo vendia a imagem de um empresário preparado para representar trabalhadores em Brasília. A realidade que emergiu de sua propriedade rural em Porto Murtinho é bem menos eleitoralmente conveniente. A Polícia Federal e o Ministério do Trabalho e Emprego encontraram 23 trabalhadores em situação irregular e abriram investigação sobre possível submissão a condições análogas à escravidão e tráfico de pessoas para exploração laboral.
A operação foi realizada no dia 17 de setembro, mediante cumprimento de mandado de busca e apreensão. Segundo a Polícia Federal, trabalhadores estrangeiros teriam sido recrutados informalmente e mantidos na propriedade em situação de vulnerabilidade. Os indícios incluem ausência de registro trabalhista, possível retenção de pagamentos e restrições à liberdade. É um conjunto grave demais para ser escondido debaixo do tapete da campanha.
A contradição é escancarada. Meses antes, Carlos Bernardo dizia pretender representar trabalhadores, pequenos empreendedores, produtores rurais e comunidades da fronteira. Também recorria à própria história para afirmar que conhecia a pobreza e a fome. Agora, o candidato que pedia votos em nome dos trabalhadores precisa explicar por que 23 deles foram encontrados em situação irregular justamente dentro de sua fazenda.
A primeira reação do candidato conseguiu piorar o que já era grave. Ao defender as condições oferecidas na propriedade, Carlos Bernardo afirmou que os trabalhadores recebiam quatro refeições e que sequer lavavam os pratos em que comiam. A frase parece revelar uma estranha compreensão sobre dignidade laboral, como se comida servida e louça lavada fossem favores capazes de substituir registro, salário e liberdade.
Bernardo também declarou que não sabia exatamente quem começava a trabalhar na fazenda nem quando isso acontecia. Segundo ele, dois empregados antigos administravam a propriedade e tinham autonomia para contratar. É uma resposta confortável para quem deseja os lucros da fazenda, mas parece menos interessado em conhecer as condições de quem produz dentro dela. Na hora da prosperidade, o patrimônio tem dono. Quando surgem as irregularidades, a responsabilidade fica órfã.
A porteira ainda escondia outro problema. Durante a operação, os agentes apreenderam 14 armas de fogo e munições em situação irregular. Algumas apresentavam numeração suprimida. Carlos Bernardo afirmou que nenhuma arma lhe pertencia e que desconhecia a existência do armamento na propriedade. O candidato pretende fiscalizar o governo federal, mas diz não saber quem trabalha, como é contratado ou quem guarda armas irregulares dentro da própria fazenda.
O empresário declarou à Justiça Eleitoral patrimônio de aproximadamente R$ 28,7 milhões, incluindo milhares de cabeças de gado e participações empresariais. Reportagem do RCN67 apontou, contudo, que a fazenda de Porto Murtinho não aparece na relação de bens apresentada no registro da candidatura. A propriedade existe para a defesa confirmar, para a Polícia Federal investigar e para os trabalhadores ocuparem, mas não foi localizada na lista de bens divulgada ao eleitor.
A biografia política de Carlos Bernardo também revela uma notável capacidade de adaptação. Depois de construir sua pré-candidatura dentro do PT, deixou a legenda e ingressou no União Brasil, aproximando-se do grupo de Reinaldo Azambuja. Chamou a mudança de estratégica. Estratégia parece ser uma palavra generosa para uma trajetória em que convicções partidárias trocam de endereço conforme a conveniência eleitoral.
A defesa afirma que Carlos Bernardo não praticou, ordenou ou tolerou qualquer violação contra os trabalhadores. Diz ainda que havia alimentação, alojamentos climatizados, banheiros e períodos de descanso. Também alega que o candidato não visitava o local havia mais de seis meses e desconhecia a existência das armas. A explicação tenta erguer uma muralha entre o proprietário e a própria fazenda, mas esbarra nos indícios oficialmente divulgados pela Polícia Federal.
Quem pede autorização para representar Mato Grosso do Sul não pode posar de comandante no palanque e virar mero visitante quando a Polícia Federal atravessa sua porteira. Carlos Bernardo prometia defender trabalhadores em Brasília, mas agora precisa explicar os 23 encontrados em situação irregular dentro de sua propriedade, os pagamentos possivelmente retidos, as suspeitas de restrição à liberdade e as 14 armas apreendidas. Antes de sonhar com uma cadeira no Congresso, o candidato terá de responder pelo pesadelo encontrado na própria fazenda.