
Adriane Lopes está há quatro anos na Prefeitura de Campo Grande, mas decidiu transformar a própria incapacidade de enfrentar a buraqueira em uma cena de sofrimento público. A prefeita afirmou que ora, sonha e sofre quando passa pelas ruas destruídas da Capital, como se estivesse apenas contemplando o problema pela janela e não ocupasse justamente o cargo responsável por resolvê-lo.
A declaração seria comovente se não fosse tão desconectada da realidade. Quem realmente sofre é o motorista que perde o pneu, quebra a suspensão, desalinha o carro e ainda precisa pagar impostos para circular por ruas abandonadas. A prefeita sofre no discurso. A população sofre no bolso, no trânsito e na oficina.
Depois de anos de promessas repetidas, Adriane anunciou mais uma operação para tapar buracos e apresentou a medida como se fosse uma conquista aguardada por toda a eternidade. Faltou explicar por que foram necessários quatro anos, uma cidade esburacada e a proximidade das eleições para que a oração finalmente encontrasse resposta administrativa.
O novo milagre custará aproximadamente R$ 45 milhões aos cofres municipais. O pacote envolve R$ 20,5 milhões para os serviços e R$ 25,7 milhões para o fornecimento de massa asfáltica, por meio do Consórcio Central, presidido pela própria prefeita. Detalhe importante – e suspeito – é que as contratações ocorreram sem licitação.
A encenação fica ainda mais constrangedora porque Adriane fala dos buracos como uma herança que caiu sobre sua mesa ontem. Ela assumiu a prefeitura em abril de 2022, foi reeleita e teve tempo suficiente para planejar manutenção, organizar equipes, contratar serviços com antecedência e impedir que a malha viária chegasse ao estado de degradação que hoje castiga Campo Grande.
Problemas herdados deixam de ser desculpa quando o governante permanece anos no poder sem solucioná-los. A partir de certo momento, a herança passa a integrar o patrimônio da própria gestão. Depois de quatro anos, cada cratera que continua aberta também carrega a assinatura da omissão de quem teve orçamento, estrutura e autoridade para agir.
O secretário municipal de Infraestrutura prometeu superar o problema em 60 dias. A população, acostumada a ouvir anúncios grandiosos e assistir ao asfalto desaparecer nas primeiras chuvas, tem todo o direito de desconfiar. Campo Grande já recebeu promessas suficientes para pavimentar uma rodovia até Brasília, mas continua obrigada a desviar de buracos dentro dos próprios bairros.
Também chama atenção a súbita pressa em resolver o que foi tolerado durante anos. O pacote surge às vésperas da eleição em que o marido da prefeita, Lídio Lopes, tenta renovar o mandato de deputado estadual. A coincidência pode até ser apresentada como obra do calendário, mas o eleitor conhece perfeitamente a velha tradição de descobrir problemas urbanos apenas quando as urnas se aproximam.
Gestão pública não se faz com lágrimas ensaiadas, frases emocionadas ou testemunhos de sofrimento. Faz-se com planejamento, prevenção, fiscalização e execução. Se oração tapasse buraco, Campo Grande teria o melhor asfalto do país. Como não tapa, a cidade precisa de uma prefeita que administre em vez de representar o papel de vítima da própria gestão.
Adriane não precisa sonhar com ruas melhores, porque recebeu mandato, orçamento e máquina pública para entregá-las. A população não quer saber se a prefeita sofre ao passar pelos buracos. Quer saber por que eles foram deixados abertos durante tanto tempo e por que a solução milionária só ganhou urgência quando a eleição bateu à porta. A cidade já ouviu a prece. Agora exige trabalho.