
A gestão da prefeita Adriane Lopes acaba de adicionar quase R$ 1 milhão a mais em um contrato de tapa-buracos, elevando para R$ 5,7 milhões o valor destinado à manutenção do asfalto apenas na região do Lagoa. A notícia, que deveria representar esperança para quem enfrenta ruas destruídas diariamente, provoca o efeito contrário. Afinal, Campo Grande já viu milhões e milhões serem despejados nessa mesma atividade sem que os resultados aparecessem nas ruas.
A realidade é cruel e visível em todos os bairros. Motoristas desviam de crateras como se participassem de uma prova de obstáculos. Motociclistas convivem diariamente com o risco de acidentes graves. Pneus estouram, suspensões são destruídas e prejuízos se acumulam enquanto a prefeitura segue anunciando novos aditivos.
O problema deixa de ser apenas administrativo quando os números são colocados lado a lado com a situação das vias públicas. Levantamento realizado com base no Portal da Transparência mostra que os gastos com tapa-buracos explodiram nos últimos anos. A média anual saltou de R$ 13,5 milhões para R$ 46,3 milhões, um crescimento impressionante de 242%. O asfalto, porém, parece não ter recebido a mesma informação.
Entre 2018 e 2025, três empresas receberam juntas R$ 239,6 milhões para serviços relacionados à recuperação do pavimento. Somente na gestão Adriane Lopes, entre 2022 e 2025, os pagamentos alcançaram R$ 185,4 milhões. O valor representa mais de três vezes tudo o que foi gasto na gestão anterior para a mesma finalidade.
A pergunta que o cidadão faz é simples e legítima. Onde foi parar tanto dinheiro? Porque basta percorrer avenidas, ruas centrais ou bairros periféricos para constatar que a buraqueira continua espalhada por toda a cidade. Em muitos locais, os reparos realizados desaparecem após as primeiras chuvas, dando a impressão de que o dinheiro investido evapora junto com a camada de asfalto.
E é justamente nesse contexto que a população relembra uma das páginas mais vergonhosas da história recente da infraestrutura municipal. A Operação Buraco Sem Fim escancarou suspeitas de um esquema milionário envolvendo contratos de tapa-buracos. A investigação apontou possíveis fraudes, medições questionáveis e pagamentos que levantaram sérias dúvidas sobre a efetividade dos serviços executados.
A operação atingiu diretamente a Construtora Rial, que durante anos figurou entre as principais beneficiárias dos contratos públicos do setor. Mesmo diante do escândalo, o cenário encontrado hoje nas ruas sugere que as lições deixadas pela investigação não foram plenamente assimiladas pela administração municipal.
O mais revoltante é perceber que, enquanto os investimentos aumentam de forma acelerada, a sensação da população é de abandono. O cidadão não enxerga os milhões anunciados nos diários oficiais. O que ele vê são crateras abertas em frente de casa, ruas deterioradas e uma cidade que parece envelhecer mais rápido do que consegue ser recuperada.
A sucessão de contratos, aditivos e gastos milionários sem resultados alimenta uma desconfiança cada vez maior. Não basta anunciar recursos. Não basta divulgar novos empenhos. A população quer ruas em condições adequadas de circulação. Quer segurança. Quer eficiência. Quer respeito com o dinheiro que sai do bolso do contribuinte.
O novo aditivo de quase R$ 1 milhão pode até aumentar o valor dos contratos. O que a prefeita Adriane Lopes ainda não conseguiu aumentar é a confiança da população. Depois de quase R$ 185 milhões gastos em sua gestão e de uma operação policial que transformou o tapa-buraco em símbolo de desperdício e suspeitas, Campo Grande continua colecionando buracos. E cada novo contrato anunciado sem resultado visível aprofunda ainda mais a sensação de que a cidade está presa em um ciclo de obras caras, promessas repetidas e problemas eternos.