Saúde sem comando empurra pacientes para a Justiça

O caos na saúde ganhou crachá de rotina e carimbo de urgência. A cidade, sem secretário de saúde há um mês, viu disparar a corrida ao Judiciário em busca de leitos, e a conta da desorganização chegou com um aumento de 42% nas demandas.

Os números do Comitê Estadual do Fórum Nacional da Saúde do CNJ falam sem maquiagem. No ano passado, foram 1.090 notas técnicas do NatJus sobre leitos, e, de janeiro a julho deste ano, já são 1.114, mesmo com cinco meses a menos de janela.

De agosto para cá, a maré virou tormenta. Foram 435 pedidos em cerca de 70 dias e uma média de seis por dia, exatamente no período em que a Sesau trocou direção por comitê e o paciente por planilha.

Nos hospitais, a fotografia é implacável. O Humap registra 100% de ocupação no CTI adulto, na UCO, na UTI pediátrica e na neonatal, e o aviso luminoso de não há vagas virou decoração permanente.

No Hospital Adventista do Pênfigo, a história se repete, com 20 leitos de UTI e 30 clínicos contratualizados com o município, e mais 10 de UTI e 20 clínicos com o Estado, tudo ocupado. Na Santa Casa, são 637 leitos destinados ao SUS, com 80,87% de ocupação e permanência média de 7,28 dias, e, ainda assim, o hospital pede audiência urgente com a prefeita e com o governador.

O Hospital Regional não respondeu, e o orçamento municipal informa que a saúde leva um terço do bolo, com 2,1 bilhões neste ano, em um total de 6,87 bilhões, e 2,25 bilhões para 2026, em 6,97 bilhões. Dinheiro que existe no papel, enquanto a fila existe no soro.

As UPAs viraram hospitais por obrigação, e não por projeto. A cena da idosa Dilfa Almeida, de 74 anos, tossindo sangue na UPA Leblon, esperando transferência, explica o conceito de negligência melhor que qualquer manual. A Justiça mandou providenciar vaga em 72 horas, porque a vida não cabe no discurso.

A prefeitura respondeu com planos e promessas. Fala em Complexo Hospitalar Municipal, em licitação, com mais de 250 leitos, e em ampliar rapidamente leitos contratualizados. Ensina, ainda, que casos de menor complexidade busquem as unidades básicas, como se a triagem do óbvio resolvesse a falta de leito.

O tal complexo tem previsão de contratualização entre o fim deste ano e o começo de 2026. No curto prazo, sobram notas e faltam macas. O paciente não cabe no PowerPoint, e o remédio emergencial continua sendo a liminar.

Para completar, a regulação de vagas virou cabo de guerra entre Estado e Prefeitura. Duas centrais decidem destinos, enquanto o doente decide se aguarda sentado ou deitado. A gestão promete luz no fim do corredor, e a realidade entrega corredor sem fim.

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