
Enquanto Campo Grande coleciona crateras e a chuva revela o que a maquiagem do recapeamento esconde, um setor comemora em silêncio — ou nem tanto. Os borracheiros da cidade vivem dias de prosperidade. Nunca se furou tanto pneu. Nunca se empenou tanta roda. Nunca se trocou tanta suspensão.
Cada temporal vira campanha de incentivo. Cada enxurrada é promoção involuntária. O asfalto novo que se desfaz em semanas virou matéria-prima para um mercado que cresce na proporção dos buracos.
O cidadão paga duas vezes: no imposto e na oficina. Já o poder público segue tratando desastre anunciado como surpresa climática. A cidade afunda, mas a indústria do remendo prospera.
E nos bastidores corre a piada cruel: se depender do faturamento das borracharias, tem gente gritando “fica, Adriana”. Não por convicção política — mas por conveniência econômica.
Campo Grande virou um grande teste de suspensão. Quem aguenta mais: o carro ou a paciência do povo?