
O caos na saúde pública de Campo Grande atinge mais um patamar vergonhoso com a nova ofensiva da Santa Casa contra a Prefeitura. O hospital, que há meses alerta sobre o colapso iminente, precisou recorrer à Justiça para cobrar da administração de Adriane Lopes (PP) os valores de internações determinadas judicialmente, ordens essas ignoradas no pagamento, mas não na transferência da responsabilidade. Ou seja, a Prefeitura não cumpre com o mínimo: salvar vidas.
Em um dos casos, o calote chega a R$ 274 mil. O valor é referente à internação de uma paciente em estado crítico, com fratura no fêmur, levada inicialmente à UPA do Jardim Leblon. A Justiça determinou a transferência para um hospital com estrutura adequada. A Santa Casa atendeu. A paciente foi acolhida, operada, medicada. O que não chegou até hoje foi o pagamento.
Outro calote, menor no valor mas não na gravidade, é de R$ 15 mil, também por atendimento emergencial após ordem judicial. A paciente com necrose foi removida da UPA do Universitário, tratada, sobreviveu. Mas para a prefeitura, parece que salvar vidas é um serviço prestado de graça ou, no caso, à base de liminares e ações judiciais.
A situação escancara a face cruel de uma gestão que não só ignora os apelos da principal unidade hospitalar da cidade, como recorre à Justiça para não pagar por tratamentos que foram devidamente prestados. Em vez de celebrar o cumprimento das ordens judiciais como vitória da vida, Adriane recorreu, literalmente, da obrigação de cuidar.
O caso mais simbólico é a ação que tramita sobre o pagamento de R$ 46,3 milhões. A Justiça determinou o sequestro de valores. Mas, novamente, a prefeita preferiu recorrer. E ganhou. Com a ajuda do desembargador Sérgio Martins, Adriane garantiu a continuidade do calote institucionalizado. Afinal, saúde, na lógica do poder municipal, parece ser apenas discurso de campanha.
Com déficit mensal de R$ 13 milhões, a Santa Casa já não esconde o desespero: cirurgias eletivas suspensas, boletins de ocorrência registrados, pacientes sob risco de morte e sequelas por falta de materiais básicos. A administração municipal, por outro lado, parece mais empenhada em justificar o injustificável do que em agir.
Não bastasse a recusa em quitar o que deve, a prefeitura é também omissa no dever de socorro. Afinal, quando o próprio Judiciário reconhece que o serviço foi prestado, que houve risco de morte, e que o atendimento salvou uma vida, a resposta da prefeita é protelar, recorrer, negar. A pergunta que resta: Adriane vai recorrer até de salvar vidas?
Em meio a essa avalanche de negligência, a população segue como vítima maior. Enquanto a Prefeitura posterga pagamentos, falta gaze, falta seringa, falta anestésico. Mas sobra ação judicial, sobra desculpa e, principalmente, sobra desprezo pelo caos instalado.
O nome disso? Não é gestão, é abandono. Pior: é abandono deliberado. E no meio disso tudo, quem continua cuidando dos pacientes, pagando contas e respondendo por vidas, muitas vezes à beira da morte, é a Santa Casa. Sozinha.
A cidade assiste, cada vez mais incrédula, a um espetáculo de omissão e desumanidade. Se a prefeita Adriane Lopes ainda tem coragem de falar em “humanização da saúde”, que comece pagando o que deve. Porque prometer o impossível e não cumprir o básico é crime. E quem paga essa conta é o povo.