Quando o desespero bate na porta da saúde pública, a violência é só o sintoma

Os casos de agressões físicas, morais e psicológicas contra profissionais da saúde em Campo Grande têm crescido de forma alarmante, e a culpa não pode ser colocada apenas sobre os ombros da população. Embora nada justifique a violência, é preciso reconhecer que ela é o reflexo de um sistema em colapso, agravado pela inércia e incompetência da atual gestão da prefeita Adriane Lopes. A explosão de intolerância nos postos de saúde não nasce do nada, ela é gestada em filas intermináveis, descaso institucional e promessas não cumpridas que viraram rotina nas unidades de saúde da Capital.

O lançamento do “Agressômetro” pelo sindicato da categoria é uma resposta desesperada à omissão do poder público. A ferramenta pretende mapear o que já é escancarado: trabalhadores da enfermagem sendo humilhados, ameaçados e até agredidos enquanto tentam, com recursos mínimos, atender uma demanda crescente de pacientes abandonados pelo sistema.

Com a maioria das agressões sendo cometidas por usuários e acompanhantes, fica evidente que não se trata de um problema isolado, mas de um quadro social de esgotamento. Os dados do Coren são assustadores: quase 42% dos profissionais da enfermagem relatam ter sofrido violência psicológica, 27% violência física, 20% assédio sexual. A maior parte sequer denuncia, por medo ou falta de esperança em providências concretas.

A gestão Adriane Lopes, em vez de apresentar soluções estruturais, responde com barreiras de vidro nas recepções e promessas de rondas da Guarda Municipal que não passam nem perto de atender toda a cidade. É a velha lógica do improviso, enquanto o caos se alastra silenciosamente. Um paliativo aqui, uma desculpa ali, e segue o baile do descaso.

O secretário-adjunto de Saúde, Aldecir Dutra de Araújo, ainda ousa atribuir a culpa ao “pós-pandemia”, como se a violência nas unidades de saúde não fosse, antes de tudo, alimentada por uma gestão desastrosa que empurra servidores ao limite e abandona a população à própria sorte. Faltam médicos, faltam insumos, falta organização, mas sobra boa vontade para discursos bonitos.

Até o Conselho Municipal de Saúde já perdeu a paciência. O coordenador Jader Vasconcelos classificou de “inércia” a atitude da prefeitura frente à escalada da violência. Um alerta que não é novo, mas que se repete em ciclos, sempre ignorado. A audiência pública na Câmara só expôs ainda mais o silêncio ensurdecedor da gestão Adriane diante do sofrimento dos servidores.

A psicóloga Eveli Vasconcelos foi certeira ao apontar a ausência de um plano de ação real e coordenado para enfrentar o problema. Enquanto isso, os trabalhadores da saúde seguem como escudos humanos entre uma população revoltada e um poder público ausente. Os que apanham continuam atendendo, para não sobrecarregar os colegas. Uma demonstração de heroísmo que a prefeita já se acostumou a explorar.

A Guarda Municipal até tenta fazer sua parte, mas admite que não consegue estar em todas as unidades. A verdade é que ninguém consegue tapar os

buracos deixados por uma gestão que escolheu terceirizar a responsabilidade pela saúde pública à fé, ao improviso e ao descaso.

Violência contra servidores não pode ser tolerada. Mas tampouco pode ser tratada como algo desvinculado da falência do sistema de saúde. A paciência da população tem limite. A dos servidores também. E a da prefeita Adriane Lopes? Essa só se manifesta quando lhe convém. Enquanto isso, quem cuida de quem cuida?

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