Quando até um exame vira luxo

Na cidade que se orgulha do “progresso”, até um simples exame de PSA virou raridade. A saúde pública de Campo Grande, que já tropeçava em filas, agora escancara seu colapso com a falta de procedimentos básicos, como exames de próstata, TSH e sangue oculto nas fezes. Indispensáveis para detectar doenças graves de forma precoce, esses exames simplesmente desapareceram do cardápio do SUS, obrigando pacientes a peregrinar entre conselhos, ouvidorias e promotorias.

Foi exatamente isso que fez um morador da Capital. Após ver seus exames preventivos sumirem da rede pública, tentou resolver pelas vias institucionais, até que a paciência cedeu lugar à indignação. Acionou o Ministério Público, que agora investiga se a precariedade é exceção ou se tornou regra. A 32ª Promotoria de Justiça de Saúde Pública instaurou inquérito civil e descobriu o que os gestores tentam esconder debaixo do jaleco: falhas graves no fornecimento de reagentes, atrasos em contratos e promessas de licitação que nunca saem do papel.

A promotora Daniella Costa da Silva foi clara: a falta desses exames compromete diretamente a atenção básica e o diagnóstico precoce, sobretudo de doenças que afetam a população masculina. A Prefeitura, por sua vez, admitiu que a culpa é da importação lenta, do recesso de fim de ano e, claro, de fatores alheios à sua vontade. A velha desculpa da má sorte, enquanto a má gestão fica bem escondida na gaveta.

Na prática, Campo Grande virou uma cidade onde até prevenção é privilégio. Se o cidadão quer saber se está com câncer ou disfunção na tireoide, é melhor pagar ou rezar. No caso do exame de TSH, o abastecimento começou a voltar, mas PSA Total e sangue oculto seguem em falta, com a promessa vaga de que “a compra está em tramitação”.

O MPMS exigiu relatórios detalhados: quantos exames foram feitos, onde estão os insumos e o que está sendo feito para que esse vexame não se repita. Pediu também acompanhamento individual do paciente que fez a denúncia, tentando garantir ao menos um final menos indigno para quem já foi ignorado demais.

Enquanto isso, a população aguarda. Aguarda reagente, vaga, agilidade, respeito. Aguarda, como quem espera um milagre médico num sistema que parece ter se esquecido de seu próprio juramento.

E assim segue Campo Grande: com o diagnóstico adiado, a saúde em crise crônica e a gestão anestesiada pela falta de vergonha.

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