
Campo Grande perdeu oficialmente o controle da regulação dos leitos do SUS. Publicada no Diário Oficial do Estado no dia 3 de junho, a Resolução CIB/SES nº 670/2025 institui a Central Única de Regulação da Urgência e Emergência, sob comando da Secretaria de Estado de Saúde, pondo fim à autonomia da Capital sobre o acesso a leitos hospitalares. É o tipo de derrota que não se vê todo dia, e que escancara o fracasso administrativo de uma gestão municipal que, além de perdida, abriu mão da responsabilidade sem oferecer resistência.
A decisão da Comissão Intergestores Bipartite (CIB) foi clara: diante da desorganização e da ineficiência, a regulação será centralizada em âmbito estadual para garantir equidade, transparência e respeito à integralidade do cuidado ao usuário. Em outras palavras, tiraram das mãos da Prefeitura o que ela deveria estar protegendo: o direito básico do cidadão ao acesso digno à saúde pública.
Não se trata de um gesto técnico, mas de uma medida corretiva. Um verdadeiro atestado de incompetência emitido contra uma gestão que falhou onde mais deveria acertar. A Prefeitura teve tempo, teve estrutura e teve aviso, mas preferiu o silêncio, a omissão e a falta de diálogo. E agora assiste de camarote ao Estado assumindo uma função que, por princípio, deveria continuar sob sua responsabilidade.
A regulação é o coração do SUS. Quem regula, comanda o fluxo de pacientes, controla a ocupação de leitos e define prioridades de atendimento. Entregar esse poder, sem luta, sem debate público e sem justificativa plausível, é mais do que um erro estratégico: é um retrocesso histórico para Campo Grande.
O mais preocupante é o contraste gritante entre esse esvaziamento de funções e a retórica de uma gestão que vive anunciando investimentos e projetos, mas que, nos bastidores, vê suas atribuições minguarem por pura falta de capacidade técnica e administrativa. É como se, aos poucos, Campo Grande fosse sendo tutelada, e o pior: com a anuência silenciosa do próprio Executivo municipal.
A desculpa, como sempre, será a de que “não houve perda, mas integração”. Um argumento frágil, facilmente desmentido pelos termos da própria resolução, que estabelece que o Estado passa a comandar toda a regulação da urgência e emergência nas macrorregiões Centro e Costa Leste, exatamente onde está a capital.
Enquanto isso, hospitais aguardam repasses, pacientes agonizam na fila e gestores municipais priorizam reajustes salariais de 66% ao invés de defender o sistema que deveria cuidar da população. A Prefeitura perdeu a regulação e ganhou… mais um problema para a conta.
Campo Grande, que já foi referência em saúde pública, hoje assiste calada a um processo de desmonte institucional. A cidade perde mais do que autonomia: perde a confiança do cidadão, que não vê mais no Executivo municipal a força política necessária para proteger seus direitos.
O Governo do Estado, por sua vez, faz o que a Prefeitura se mostrou incapaz de fazer: assume o controle para tentar reorganizar o caos. E, nesse embate silencioso entre gestão e desordem, o Estado vence. A Capital recua. E a população, mais uma vez, é quem paga o preço.