
O choro silencioso de uma mãe que só quer salvar a filha ecoa em cada linha escrita por Geisiane Zanatto, mãe da pequena Lorena, que nasceu no último dia 9 de junho na Santa Casa de Campo Grande. Com apenas algumas horas de vida, Lorena já enfrentava dois diagnósticos graves: atresia tricúspide grau 2, uma cardiopatia congênita severa, e um teratoma na cabeça. Desde a segunda ultrassonografia morfológica, realizada em fevereiro deste ano, a luta dessa família começou. Uma batalha contra o tempo, contra a negligência e contra a morosidade do sistema de saúde.
Apesar do plano de saúde IMPCG não cobrir o procedimento com o especialista ideal, a esperança se manteve viva quando a Santa Casa informou que poderia realizar a cirurgia. Porém, essa promessa virou frustração. Desde o nascimento de Lorena, nenhuma cirurgiã cardíaca pediátrica acompanhou seu quadro clínico. A bebê foi assistida apenas por plantonistas e teve sua cirurgia adiada por uma série de entraves administrativos e mudanças de foco no tratamento.
O caso é cruel. Inicialmente estável e pronta para a cirurgia, Lorena foi submetida a uma tentativa de ressonância magnética, que não foi realizada no dia previsto por cair em um feriado. Dias depois, durante o exame, a bebê sofreu uma parada cardíaca. A sequência de atrasos e a ausência de especialistas permitiram o surgimento de uma infecção, que exigiu nova pausa no plano de ação. E enquanto o tempo passava, a vida de Lorena pendia por um fio.
Mesmo com a infecção controlada, a cirurgia continua sem data. A justificativa? O hospital só realiza cirurgias cardíacas entre segunda e quarta-feira. Enquanto isso, Lorena segue na UTI neonatal, vulnerável e em risco de novas infecções. Os exames mais recentes mostram que ela está clinicamente apta para a cirurgia. Mas não há previsão. Não há urgência. Não há resposta.
O mais estarrecedor é saber que o plano de saúde afirma dar cobertura total, mas a única profissional disponível atende exclusivamente pelo SUS, onde a espera é regra e a prioridade, raridade. Nenhum cirurgião cardíaco infantil a acompanhou desde seu nascimento. E o acompanhamento neurológico, necessário para avaliar possíveis sequelas, depende de ligações insistentes ao SAC do hospital.
Geisiane, a mãe, virou porta-voz da própria dor. Em sua carta aberta, ela não pede milagres. Pede respeito, atenção, cuidado. Pede que sua filha tenha o direito básico à saúde, esse direito que tantos discursos políticos proclamam, mas que tantos sistemas negligenciam.
Em meio a um quadro clínico urgente e com a vida em risco, a pequena Lorena é vítima de uma rede de promessas não cumpridas, de um plano de saúde limitado e de uma estrutura pública que opera a passos lentos diante da urgência da vida. Cada dia a mais é um risco. Cada silêncio é uma sentença.
A sociedade precisa se mobilizar. As autoridades precisam agir. O caso de Lorena não pode ser mais um número entre tantos. Não se trata de política, mas de humanidade. A vida de um bebê está nas mãos de um sistema que deveria protegê-la, mas está falhando.
Lorena precisa viver. E viver com dignidade, com urgência, com cuidado. Que a carta desta mãezinha não seja só um grito no vazio. Que seja o ponto de virada. Que seja o começo da resposta que a pequena Lorena tanto merece