Campo Grande encerra emergência na saúde, mas quem frequenta os postos segue em estado de calamidade

A Prefeitura de Campo Grande decidiu, com toda pompa burocrática, não prorrogar o decreto de emergência na saúde pública. Para a gestão de Adriane Lopes (PP), a situação já estaria “sob controle” e os números “em queda”. Pena que os dados da realidade — esses que não cabem em planilhas maquiadas — seguem escancarando o colapso dos postos de saúde, onde faltam médicos, remédios, equipamentos e até o básico da dignidade humana.

Quem tenta atendimento nas unidades da Capital enfrenta uma espécie de purgatório sanitário porque espera horas sem previsão, deitado em cadeiras duras, gemendo de dor enquanto observa baratas subirem pelas roupas e paredes mofadas. Sim, baratas. Porque nem dedetização a gestão emergencial conseguiu garantir. E se antes a desculpa era a sazonalidade das síndromes respiratórias, agora nem vírus justifica mais o abandono. O caos virou rotina, e rotina não entra em decreto.

Enquanto a Secretaria Municipal de Saúde solta notas dizendo que “o cenário não justifica a continuidade da emergência”, o cidadão comum tenta, inutilmente, justificar sua existência em meio ao descaso. O drama é ainda maior para mães com crianças pequenas, que deveriam ser transferidas em até 24 horas para hospitais, mas seguem empacadas nas UPAs superlotadas.

A suposta redução de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) não se reflete nas salas de espera abarrotadas, tampouco nos corredores onde oxigênio virou artigo de luxo. A crise que começou com a falta de leitos virou falta de tudo: de pediatras, de exames, de soro, de estrutura e de vergonha na cara de quem governa.

E mesmo com mais de mil casos semanais registrados na fase crítica da epidemia, a Prefeitura manteve a fórmula mágica de transferir o problema de papel passado em Diário Oficial para debaixo do tapete da realidade. Para o Planalto Municipal, se não há decreto, não há problema. Para quem precisa de atendimento, o problema é sair vivo da UPA.

Não bastasse o abandono estrutural, a limpeza das unidades virou piada de mau gosto. Profissionais relatam falta de insumos básicos para higienização, e a presença constante de insetos e lixo acumulado nos fundos das unidades. É a saúde pública transformada num cenário de filme de terror sanitário, mas sem o glamour do roteiro ou a esperança do final feliz.

Curiosamente, o governo municipal diz que todas as ações de prevenção, vigilância e assistência “seguem ativas”. Resta saber onde. Porque nos bairros, o que segue ativo mesmo é o desespero, a revolta e a sensação de que, para a gestão Adriane Lopes, o sofrimento alheio é só mais um dado a ser ignorado.

Enquanto a gestão se gaba de ter aberto vacina para todos e criado um comitê de emergência que ninguém viu funcionar, mães seguem saindo das UPAs chorando, não por alívio, mas por não saber o que fazer com uma receita médica sem medicamentos e sem dinheiro para farmácia.

Em resumo, Campo Grande decretou o fim da emergência, mas apenas no papel. Nas filas, no mofo, na barata que escala pernas de pacientes e no choro abafado de crianças sem oxigênio, o estado de calamidade segue firme, forte e invisível para quem governa da cadeira limpa em ambiente climatizado.

Compartilhe
Notícias Relacionadas
© 2024 O Consumidor News
Desenvolvido por André Garcia - www.conffi.com.br