
Enquanto a prefeita Adriane Lopes (PP) promove reajustes milionários para o alto escalão e posa em eventos com discurso de compromisso social, a saúde mental da população de Campo Grande afunda em um cenário digno de diagnóstico coletivo de negligência. A fila de espera para a primeira consulta psiquiátrica chega a 4,1 mil pessoas, os medicamentos continuam faltando nos Centros de Atendimento Psicossocial (CAPS) e no Centro de Especialidades Médicas (CEM), e a rede de atendimento parece mais um quebra-cabeça com peças perdidas do que um sistema minimamente funcional.
Durante audiência pública realizada na Câmara Municipal, vereadores, especialistas e representantes de conselhos profissionais escancararam o que a população já sente na pele: a política de saúde mental da Capital está colapsada. Faltam leitos, faltam profissionais e faltam medicamentos, sobra apenas maquiagem estatística. A prefeitura teve a audácia de afirmar ao Ministério Público que a demanda de adultos foi “zerada”, mas logo depois admitiu que ainda há dezenas aguardando atendimento, sem contar as 132 crianças que continuam na fila.
A estrutura atual conta com apenas sete CAPS para toda a cidade, número absolutamente insuficiente para atender a uma demanda crescente em tempos de crises emocionais, sociais e econômicas. Nas regiões mais afastadas, como as Moreninhas, os pacientes precisam cruzar a cidade em busca de acolhimento. A realidade é de abandono institucional, agravado pela escassez de médicos psiquiatras e ausência de planejamento efetivo.
A promotora de Justiça Daniella Guiotti revelou que foi necessária ação judicial para obrigar a prefeitura a apresentar um plano de redução de filas. Isso mesmo: é preciso acionar o Judiciário para que o Executivo cumpra o mínimo. A coordenadora da Rede de Atenção Psicossocial da Sesau, por sua vez, jogou a responsabilidade para o futuro, prometendo concursos e planejamentos, enquanto os pacientes continuam à deriva no presente.
O que se viu na audiência foi um desfile de diagnósticos conhecidos, mas sem alta previsão de cura. A psicóloga Anita Bernardes falou sobre a importância de um cuidado em liberdade, enquanto profissionais relataram agressões, falta de estrutura e preconceito no atendimento a pacientes com transtornos mentais. Mais uma vez, fala-se em empatia, inclusão e dignidade em um contexto onde reina o improviso, a omissão e o descaso.
O vereador Jean Ferreira apontou discrepâncias nos valores apresentados pela Secretaria de Saúde, exigindo transparência. Já Luiza Ribeiro cobrou a aplicação da Lei Federal que exige a presença de psicólogos e assistentes sociais nas escolas. Em uma cidade onde a saúde mental é ignorada até no espaço educacional, o problema vai além do CAPS: está entranhado no modelo de gestão que prioriza o marketing à política pública.
O aumento de 68% nos afastamentos do trabalho por doenças mentais, segundo dados do Ministério da Previdência, é um alerta que a prefeitura prefere ignorar. A psicóloga Ana Júlia de Jesus lembrou que saúde mental não é mercadoria,
muito menos instrumento de repressão, mas em Campo Grande, parece ser apenas mais um número no relatório que ninguém lê.
Enquanto o Estado aponta para políticas de incentivo e o Ministério Público pressiona, a prefeitura segue arrastando os pés. E mesmo com representantes da própria Sesau admitindo o déficit de profissionais, a promessa continua sendo empurrar o problema para o ano que vem, com um possível concurso público. Até lá, quem precisa de atendimento continua à espera ou desiste.
Campo Grande clama por uma política pública real, humanizada e eficiente na saúde mental. Mas, sob a gestão atual, o que se recebe é apenas uma receita amarga de inércia, descompromisso e promessas vencidas. A cidade do reajuste seletivo e das filas eternas já tem seu diagnóstico: crise crônica de responsabilidade administrativa.