
A Santa Casa de Campo Grande chegou ao ponto em que nem sequer consegue manter uma direção por um dia inteiro. Menos de 24 horas depois de anunciar seu novo comando, a instituição teve toda a Diretoria Corporativa e o Conselho de Administração afastados pela Justiça. O maior hospital de Mato Grosso do Sul, já castigado por denúncias de desvios milionários, agora está sob gestão provisória porque sua estrutura administrativa perdeu qualquer aparência de normalidade.
Alir Terra Lima formalizou sua renúncia à presidência enquanto permanecia presa preventivamente em decorrência da Operação Antidotum. O cargo passou temporariamente por outras mãos até que Heitor Rodrigues Freire fosse anunciado como novo presidente. A tentativa de reorganização, porém, durou menos de 24 horas. O juiz Eduardo Lacerda Trevisan determinou o afastamento imediato dos dirigentes e conselheiros, incluindo o presidente recém anunciado, desmontando a solução improvisada pela própria instituição antes mesmo que ela pudesse sair do palco da cerimônia.
A intervenção é consequência direta da Operação Antidotum, deflagrada para investigar contratos suspeitos, pagamentos sem a correspondente prestação de serviços e prejuízos que já ultrapassariam R$ 4,9 milhões. A operação cumpriu seis mandados de prisão preventiva e 36 mandados de busca e apreensão, atingindo a então presidente Alir Terra Lima, diretores, funcionários e empresários ligados aos negócios investigados.
Uma das apurações envolve um contrato de R$ 5,4 milhões para digitalização de prontuários. Segundo o Ministério Público, aproximadamente R$ 1,4 milhão teria sido desviado apenas no primeiro ano, mediante pagamentos por serviços que não teriam sido efetivamente executados. Enquanto pacientes aguardavam atendimento e profissionais enfrentavam escassez, o dinheiro destinado à saúde teria encontrado caminhos muito mais rápidos do que as macas nos corredores.
As suspeitas alcançam também a operadora Santa Casa Saúde. Empresas vinculadas ao mesmo grupo econômico, registradas em endereço que estaria desocupado, receberam cerca de R$ 9,6 milhões somente em 2025. O prejuízo mínimo estimado nessa frente é de R$ 3,5 milhões. Conforme apontam as investigações, a Santa Casa teria sido transformada em território fértil para contratos nebulosos, fornecedores privilegiados e controles convenientemente ignorados.
O descalabro já ameaça alcançar diretamente os pacientes. Documentos citados na decisão judicial mostram que a empresa responsável pelos serviços de anestesiologia notificou o hospital sobre honorários não pagos desde maio e comunicou a possibilidade de interromper os atendimentos a partir de 1º de outubro. Depois do dinheiro sumir entre contratos investigados, o risco agora é faltar até anestesia para quem precisa de cirurgia.
É revoltante que uma instituição responsável por cerca de 600 leitos e por atendimentos de alta complexidade tenha sido empurrada para tamanha insegurança. A Santa Casa é referência em neurocirurgia, tratamento de queimados, traumas ortopédicos e cardiologia. Não se trata de uma associação qualquer, mas de uma peça essencial do sistema público de saúde que atende pacientes de Campo Grande, de todo o Estado e até de países vizinhos.
Luiz Alberto Hiroki Kanamura foi nomeado gestor provisório pelo prazo inicial de 180 dias, com possibilidade de prorrogação. A Justiça também proibiu a recondução dos dirigentes afastados, restringiu o acesso deles às dependências da instituição e determinou a apresentação de relatórios mensais sobre a situação administrativa, financeira e operacional.
Enquanto diretorias caem, conselheiros são afastados e milhões aparecem em contratos investigados, médicos, enfermeiros e demais trabalhadores continuam sustentando o atendimento com esforço diário. São esses profissionais e os pacientes que pagam a conta de uma sucessão de decisões administrativas que deixou o hospital sem estabilidade, sem credibilidade e perigosamente próximo de interromper serviços fundamentais.
A Santa Casa foi saqueada sob suspeitas gravíssimas e agora está a Deus dará, dependendo de uma intervenção judicial para continuar funcionando. Não basta trocar nomes, distribuir cargos ou realizar cerimônias de posse. É preciso abrir as contas, revisar cada contrato, recuperar cada centavo desviado e responsabilizar quem transformou um hospital centenário em cenário de operação policial. A população não pode continuar esperando socorro de uma instituição que também precisa ser urgentemente socorrida.