Rombo de R$ 575 milhões escancara anos de abandono na fiscalização do transporte

Uma dívida estimada em R$ 575 milhões é o retrato financeiro do desastre que tomou conta do transporte coletivo de Campo Grande. Segundo levantamento da equipe de intervenção, os empresários responsáveis pelo Consórcio Guaicurus deixaram um passivo gigantesco enquanto a população continuava pagando tarifa para viajar em ônibus lotados, atrasados e deteriorados.

Um rombo dessa dimensão não aparece de uma semana para outra. Ele cresce durante anos, alimentado por má gestão, falta de controle e negligência. Por isso, a pergunta inevitável não deve ser dirigida apenas às empresas, mas também ao poder concedente que tinha o dever de acompanhar contas, frota, horários, manutenção e cumprimento do contrato.

A população avisou repetidamente que o sistema estava desmoronando. Passageiros denunciaram superlotação, linhas insuficientes, atrasos constantes, veículos quebrados, calor dentro dos ônibus e longas esperas nos terminais. O caos circulava diariamente pelas ruas, mas parece ter demorado muito mais para alcançar os gabinetes responsáveis pela fiscalização.

Quando a Prefeitura finalmente decidiu intervir, admitiu que uma comissão administrativa havia identificado irregularidades na prestação dos serviços. O relatório apontou descumprimento de horários, deterioração dos veículos, falhas nas inspeções técnicas e pendências na documentação obrigatória. Não era surpresa nem fatalidade, mas um conjunto de problemas que deveria ter sido percebido e enfrentado muito antes.

O município tinha instrumentos para fiscalizar, exigir correções, aplicar sanções e impedir que a precariedade se transformasse em rotina. Se os ônibus circulavam em condições inadequadas e as obrigações contratuais não eram cumpridas, a omissão na cobrança ajudou a prolongar o sofrimento de quem depende do transporte público para trabalhar, estudar e buscar atendimento médico.

A intervenção começou apenas em junho de 2026, com o afastamento temporário do Consórcio Guaicurus e prazo de até 180 dias para análise das irregularidades. A medida foi apresentada como inédita e necessária, mas chegou depois de anos de reclamações e quando o problema já havia alcançado proporções financeiras e operacionais assustadoras.

O Tribunal de Contas de Mato Grosso do Sul também retomou a fiscalização e passou a cobrar providências da Prefeitura sobre a possível venda do consórcio. A movimentação confirma que não basta trocar os donos ou transferir o problema para outro grupo empresarial. Qualquer mudança precisa ser acompanhada de garantias concretas de capacidade financeira, renovação da frota e melhoria imediata do serviço.

A dívida de R$ 575 milhões também exige uma radiografia completa. A sociedade precisa saber quem são os credores, como o passivo foi formado, quais obrigações deixaram de ser pagas, quanto foi acumulado durante a concessão e se esse rombo é fruto de desvio de dinheiro.

Enquanto empresários discutiam números milionários, o passageiro pagava a conta em tempo perdido, desconforto e insegurança. O usuário não pode ser novamente convocado a financiar uma gestão privada fracassada por meio de aumentos de tarifa, subsídios sem contrapartida ou desculpas que tentem transformar descontrole empresarial em responsabilidade coletiva.

O poder público precisa explicar como permitiu que um serviço essencial, cercado de reclamações antigas e sinais evidentes de colapso, chegasse a um rombo de R$ 575 milhões. A intervenção só terá valor se produzir transparência, responsabilização e mudanças reais. Depois de tanto abandono, Campo Grande não aceita mais relatórios tardios nem promessas sobre rodas. Quer ônibus funcionando, fiscalização permanente e respeito por quem sustentou o sistema mesmo quando o sistema já havia deixado de respeitar a população.

Compartilhe
Notícias Relacionadas
© 2024 O Consumidor News
Desenvolvido por André Garcia - www.conffi.com.br