Adriane torra fortuna em frota e valor compraria 606 carros novos

A prefeita Adriane Lopes (PP) parece ter perdido qualquer noção de economia quando o assunto é gastar o dinheiro do contribuinte. A manutenção da frota municipal virou uma verdadeira máquina de consumir recursos públicos, com contratos que alcançam a astronômica cifra de R$ 48,5 milhões, dinheiro suficiente para comprar 606 carros zero quilômetro. O contraste é revoltante. Enquanto Campo Grande enfrenta uma crise na saúde, ruas esburacadas e serviços públicos cada vez mais precários, a administração municipal compromete uma fortuna com a manutenção de veículos. A dimensão da despesa desafia o bom senso e exige explicações convincentes sobre o destino de cada centavo retirado dos cofres públicos.

O que torna a situação ainda mais preocupante é a evolução dos contratos. Inicialmente, os 24 instrumentos somavam R$ 10,6 milhões, mas receberam nada menos que R$ 37,8 milhões em aditivos, elevando o montante contratado para R$ 48.509.432,61. Os acréscimos representam aproximadamente 355% do valor original. É uma escalada financeira que exige muito mais do que justificativas burocráticas. A população tem o direito de saber quais serviços foram efetivamente realizados, quais veículos receberam manutenção e quais critérios técnicos sustentaram aumentos dessa magnitude.

A comparação com veículos novos escancara o tamanho da despesa. Considerando os preços levantados pela reportagem de O Jacaré, o montante contratado permitiria adquirir 669 unidades do Citroën C3, 616 do Renault Kwid ou 598 do Fiat Mobi. É evidente que uma frota pública necessita de manutenção e que a aquisição de veículos não elimina os custos operacionais. Entretanto, números dessa dimensão impõem uma pergunta incontornável. A prefeitura comprovou que manter os veículos existentes, nas condições contratadas, é mais vantajoso para o contribuinte do que renovar parte da frota?

A situação ganha contornos ainda mais graves quando se observa a destinação dos recursos da saúde. Somente um dos contratos vinculados ao Fundo Municipal de Saúde, inicialmente estabelecido em R$ 4,1 milhões, recebeu R$ 14,6 milhões em aditivos. Entre janeiro e setembro deste ano, a QFrotas recebeu R$ 3,98 milhões da prefeitura, dos quais R$ 1,5 milhão saíram do Fundo Municipal de Saúde. São cifras que contrastam com as dificuldades enfrentadas por pacientes que dependem de consultas, medicamentos, exames e procedimentos na rede pública.

O histórico da manutenção das ambulâncias do Samu torna a cobrança por transparência ainda mais urgente. Uma auditoria do Sistema Nacional de Auditoria do SUS identificou falhas na execução e fiscalização do contrato com a QFrotas e apontou despesas de R$ 589.389,28 com a manutenção de uma única ambulância durante dois anos e cinco meses. O montante supera significativamente o valor de mercado de uma ambulância nova considerado pela fiscalização. O relatório também apontou a necessidade de devolução de R$ 345,3 mil por aplicação indevida de recursos. Diante de constatações dessa gravidade, não basta apresentar notas fiscais. É indispensável demonstrar a necessidade, a execução e a regularidade dos serviços pagos.

A sucessão de despesas também chama a atenção porque a prefeitura manteve contratos de locação de ambulâncias mesmo após receber veículos novos do Ministério da Saúde. A situação provocou questionamentos do Conselho Municipal de Saúde e de representantes políticos. A Secretaria Municipal de Saúde justificou a continuidade da locação pela necessidade de manter veículos de reserva e garantir o funcionamento do atendimento de urgência. A explicação precisa ser confrontada com os custos efetivos, a disponibilidade da frota própria e os gastos simultâneos com manutenção. Afinal, a administração deve demonstrar que não está pagando mais do que o necessário para assegurar o mesmo serviço.

Outro aspecto que merece investigação urgente é o histórico da empresa contratada. A QFrotas foi constituída em novembro de 2021 e, poucos meses depois da posse de Adriane Lopes, firmou os 24 contratos com a administração municipal. Importante destacar que nenhuma das seis atividades econômicas cadastradas pela empresa na Receita Federal é especificamente voltada à manutenção e ao conserto de veículos, o que reforça a necessidade de verificar a estrutura operacional, os serviços efetivamente prestados e a fiscalização dos contratos.

O Ministério Público Estadual instaurou, em 2025, inquérito civil para investigar possíveis irregularidades nas renovações contratuais e nos aditivos envolvendo a QFrotas. Agora. a sociedade precisa conhecer os resultados dessa apuração e saber se os acréscimos contratuais observaram os limites legais, foram devidamente motivados e corresponderam a necessidades reais da administração. O dinheiro público não pode ser tratado como recurso inesgotável, muito menos ficar protegido da fiscalização por uma montanha de papelada.

Adriane Lopes deve explicações à população de Campo Grande. Os R$ 48,5 milhões representam o valor acumulado dos contratos e aditivos, não necessariamente a quantia integral já desembolsada, distinção fundamental para uma análise responsável. Ainda assim, a dimensão dos compromissos assumidos e as falhas já apontadas na manutenção das ambulâncias justificam uma apuração minuciosa. A prefeitura, por sua vez, não se dá ao trabalho de responder aos questionamentos sobre os contratos da QFrotas. Entretanto, transparência não é favor e o contribuinte, que sustenta a máquina pública com seus impostos, não pode continuar sem respostas sobre despesas dessa magnitude.

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