Falta de fiscalização transforma reboques clandestinos em ameaça nas ruas de Campo Grande

Jornal O Consumidor News recebeu uma grave denúncia sobre o transporte irregular de veículos pelas ruas de Campo Grande. Caminhonetes estariam rebocando automóveis em equipamentos popularmente conhecidos como asas deltas, muitas vezes sem sinalização adequada, com excesso lateral, documentação incompatível e condutores supostamente sem a habilitação exigida para a combinação utilizada. Enquanto esse improviso perigoso se espalha pela cidade, a fiscalização da Agetran parece não enxergar o risco circulando diante de todos.

As imagens encaminhadas à reportagem mostram veículos transportados em pequenos reboques, com partes da carga projetadas para os lados e conjuntos que ocupam espaço considerável da pista. Em um dos casos relatados, uma caminhonete transportava outro veículo quando uma roda do equipamento se soltou na Rua da Divisão. O acidente ocorreu durante uma conversão e, por sorte, não terminou em uma tragédia maior.

Se a roda tivesse se desprendido em uma avenida movimentada ou durante um percurso em velocidade mais alta, o automóvel transportado poderia ter ficado completamente desgovernado. Pedestres, motociclistas e motoristas seriam transformados em alvos de uma estrutura pesada sem controle. A diferença entre o susto e uma morte pode estar em poucos segundos, mas a Agetran aparentemente espera que o pior aconteça para começar a fiscalizar.

A denúncia também aponta a utilização de engates que não suportariam o peso transportado. Quando há sobrecarga, o equipamento pode quebrar, deixando o reboque sem estabilidade e sujeito a invadir outra faixa, atingir veículos ou avançar sobre a calçada. Não se trata de mera irregularidade burocrática, mas de uma atividade que, quando realizada sem estrutura adequada, coloca vidas em perigo.

Há ainda suspeitas sobre a habilitação dos condutores. Ao contrário do que alguns podem imaginar, a exigência da categoria E não decorre apenas da existência de três elementos no conjunto. A categoria necessária depende das características e do peso bruto total das unidades envolvidas. As regras do Contran estabelecem que combinações não abrangidas pela categoria B podem exigir categoria C ou E, conforme o peso do reboque e a configuração do conjunto. Cabe à fiscalização pesar, conferir os documentos e retirar de circulação quem estiver dirigindo sem a habilitação correspondente. 

O denunciante afirma ainda que muitos condutores não possuem a observação EAR na carteira de habilitação, exigida quando o motorista exerce atividade remunerada ao volante. Também sustenta que caminhonetes e reboques utilizados comercialmente estariam registrados na categoria particular, e não na categoria aluguel. Essas informações dependem da consulta individual aos documentos, algo que a Agetran tem meios e obrigação de verificar durante uma abordagem.

O excesso lateral e a ausência de sinalização tornam a situação ainda mais preocupante. A regulamentação do Contran prevê requisitos específicos para combinações destinadas ao transporte de veículos e enquadra como infrações a carga que ultrapassa os limites laterais e a falta da sinalização especial exigida. Portanto, não basta engatar uma estrutura barata na traseira de uma caminhonete e transformar a rua em extensão de um negócio clandestino. 

Segundo a denúncia, existem mais de 100equipamentos desse tipo circulando em Campo Grande, supostamente registrados como particulares apesar do uso remunerado. A circulação visível dessas combinações demonstra que o problema não pode ser tratado como um episódio isolado. Se a prática se tornou comum, foi porque encontrou terreno fértil na ausência de abordagens e no silêncio da fiscalização municipal.

A própria Prefeitura divulga ações da Agetran voltadas à segurança viária e afirma que o órgão trabalha para reduzir acidentes e salvar vidas. O discurso, porém, perde valor quando conjuntos potencialmente irregulares trafegam pela cidade sem que haja operações específicas para conferir habilitação, EAR, capacidade de tração, registro, licenciamento, condições do engate, sinalização, peso e dimensões. Fiscalizar apenas depois de uma roda cair é admitir que a prevenção fracassou

A Agetran precisa deixar a zona de conforto, localizar esses equipamentos e realizar uma operação rigorosa antes que o próximo reboque desgovernado deixe mortos pelo caminho. Campo Grande convive com uma atividade remunerada exercida à margem de exigências elementares de segurança. Depois de alertada, a omissão do poder público deixa de ser simples descuido e passa a representar uma escolha perigosa de abandonar a população à própria sorte.

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